«Turista vê o mar bonito. A gente vê se a estrada aguenta ambulância quando chove.» — Dona Raimunda, Ilha de Maré (BA)
Comunidades de pescadores no litoral brasileiro aparecem em guias de viagem como cenário autêntico — casinhas coloridas, barco na areia, pôr do sol. De dentro, a rotina envolve outra lista: a escola tem professor suficiente? O posto de saúde abre em dia de maré alta? A estrada para a cidade aguenta chuva?
Visitamos três comunidades com perfis distintos: Ilha de Maré, na Bahia; Barra do Sirinhaém, em Pernambuco; e Barra da Lagoa, em Santa Catarina. O objetivo não era comparar cartões-postais, mas entender como cada lugar organiza a vida coletiva quando o Estado chega pouco e a solidariedade faz muito.
Ilha de Maré: educação e identidade
Na Ilha de Maré, a escola municipal concentra crianças de várias vilas. Professores relatam falta de material e dificuldade de reter docentes — muitos moram no continente e dependem de barco com horário fixo. Mesmo assim, a comunidade mantém projetos de leitura e oficinas sobre história local, incluindo a resistência de pescadores contra pressões de grandes projetos.
A associação de moradores funciona como ponto de articulação: reúne demandas de infraestrutura, organiza mutirão de limpeza e media conflitos de vizinhança. «Sem associação, a gente não é ouvido em lugar nenhum», resume o vice-presidente.
Barra do Sirinhaém: saúde e deslocamento
Em Barra do Sirinhaém, o posto de saúde atende casos básicos, mas exames e partos exigem deslocamento para Recife — viagem que pode levar duas horas com transporte público irregular. Gestantes e idosos são os mais afetados. A comunidade pede ampliação do horário de atendimento e ambulância dedicada, sem sucesso até agora.
Pescadores feridos em embarcação dependem de bombeiros voluntários e vizinhos com carro. Histórias de demora no atendimento circulam com frequência, alimentando desconfiança em relação a promessas eleitorais.
Barra da Lagoa: turismo e moradia
Barra da Lagoa vive pressão diferente: o turismo cresceu e aluguel de temporada disputa espaço com moradia permanente. Famílias de pescadores relatam que proprietários preferem alugar para veranistas em janeiro e fevereiro, empurrando moradores para bairros mais afastados — longe do cais, perto do problema.
A associação local negocia com a prefeitura um zoneamento que preserve área residencial para quem trabalha na pesca. O debate está em andamento e divide moradores entre os que veem oportunidade no turismo e os que temem perda definitiva de identidade comunitária.
O que une os três lugares
Em todas as visitas, encontramos organização de base forte e expectativa baixa em relação a promessas distantes. Comunidades no litoral não esperam salvação de Brasília — cobram presença do município, respeito à legislação de territórios tradicionais e investimento em serviços básicos.
Há também um fio de orgulho que não aparece em folder turístico: conhecimento de maré transmitido oralmente, receitas que dependem do que o dia trouxe, festas de padroeiro que reúnem quem ficou e quem voltou. Documentar essa realidade — com suas contradições — é parte do trabalho da Rede da Costa.
Pesquisadores consultados para esta matéria lembram que políticas de desenvolvimento costeiro costumam priorizar o que é visível de fora: orla, píer, mirante. O que sustenta a vida por dentro — saneamento, escola em tempo integral, transporte — fica para segundo plano. Inverter essa lógica exigiria ouvir quem mora na vila antes de desenhar o projeto.
Se você mora em comunidade costeira e quer contar como é a infraestrutura aí, escreva para [email protected].