«A gente não pediu para sair. A cidade é que veio para cima da gente.» — Seu Manoel, Colônia Z-1, Recife
As colônias de pescadores no Brasil são mais do que endereços no mapa: são associações que organizam o trabalho, negociam com compradores, guardam documentação de embarcações e funcionam como extensão da casa de quem vive do mar. Quando a cidade cresce em volta do cais, esse tecido social é o primeiro a sentir a pressão.
Visitamos três colônias em contextos diferentes: a Z-1, no Recife, onde obras do porto e a expansão do bairro do Pina reduziram áreas de atracação; a Aparecida, em Santos, pressionada pelo turismo de cruzeiros e pela valorização imobiliária na orla; e a Santo Antônio, em Itajaí, onde a indústria naval vizinha alterou rotas de saída das embarcações artesanais.
Recife: maré baixa e terreno alto
Na Z-1, a assembleia de maio discutiu um problema que se repete há anos: falta de vaga para atracar após a dragagem do canal. Pescadores relatam que embarcações menores disputam espaço com barcos de apoio a turismo. «Antes a gente saía de madrugada sem burocracia. Agora tem fiscal, tem horário, tem fila», conta Dona Graça, que trabalha na colônia há trinta e dois anos.
O aluguel subiu. Casas de madeira que abrigavam três gerações foram vendidas para construtoras. Jovens que aprenderam a pescar com o avô passaram a trabalhar em shopping ou delivery — não por vergonha da profissão, mas porque o retorno financeiro não fecha mais.
Santos: a orla que virou vitrine
Em Santos, a narrativa oficial fala em revitalização. Para a Colônia Aparecida, revitalização significou restaurantes de preço alto na beira do cais e menos espaço para secar rede. O presidente da colônia, Carlos Eduardo, mostra atas de reunião com a prefeitura pedindo área coberta para manutenção de equipamento — pedido repetido desde 2019.
O turismo de cruzeiros trouxe movimento, mas pouco benefício direto. «O passageiro desce, tira foto, sobe de novo. Ninguém compra nosso peixe», resume um pescador que prefere não se identificar. A colônia tenta organizar venda direta aos fins de semana, mas a fiscalização sanitária exige estrutura que nem sempre cabe no orçamento coletivo.
Itajaí: indústria ao lado, pesca no limite
Itajaí apresenta outro cenário: a proximidade com estaleiros e o tráfego de embarcações grandes obrigam pescadores artesanais a rotas mais longas e combustível mais caro. A Colônia Santo Antônio conseguiu, após anos de articulação, um convênio com universidade local para capacitação em gestão — mas o número de filiados caiu de cento e oitenta para cento e vinte em uma década.
Pesquisadores da UFSC acompanham o caso e apontam um padrão nacional: colônias com documentação em dia e liderança estável resistem melhor. As mais fragmentadas perdem espaço físico e representatividade política.
O que as colônias pedem
Em todas as visitas, três demandas se repetiram: área garantida de atracação e manutenção; política habitacional que permita morar perto do trabalho; e programas de formação que não tratem pesca como ofício residual. Não são pedidos abstratos — estão em planos diretores, leis estaduais e acordos que raramente saem do papel.
A Rede da Costa continuará acompanhando essas comunidades. Se você mora ou trabalha em colônia de pescadores e quer compartilhar experiência, escreva para [email protected].