«Se o litro sobe dez centavos, a viagem deixa de valer. A gente faz conta na beira do cais antes de ligar o motor.» — Zé Maria, Caucaia (CE)
Falar de pesca artesanal no Brasil costuma evocar imagens de rede lançada ao amanhecer e peixe fresco na areia. O que raramente aparece é a planilha mental que todo pescador faz antes de sair: quanto custa o diesel, qual a cota de gelo, se o defeso permite a espécie alvo e quanto o atravessador vai pagar por quilo na volta.
Passamos duas semanas entre Caucaia, no Ceará, e Valença, na Bahia, acompanhando saídas de embarcações artesanais e conversando com quem organiza a comercialização. O retrato que emerge é de um setor que sustenta milhares de famílias, mas opera com margens estreitas e pouca previsibilidade.
O peso do combustível
Em Caucaia, o preço do diesel marítimo subiu de forma perceptível nos últimos dezoito meses. Pescadores que usam saveiro motorizada relatam que uma saída de seis horas pode consumir mais de sessenta litros. Se a captura for fraca — o que acontece com frequência em períodos de mar agitado — o prejuízo é imediato.
Alguns formaram grupos de compra coletiva para negociar com postos da região. Outros reduziram dias de saída, concentrando esforço quando a previsão de maré e tempo indica melhor janela. «Não é preguiça. É matemática», diz Chico, que pesca há vinte e cinco anos e agora também trabalha como pedreiro nos meses mais difíceis.
Defeso: proteção necessária, renda interrompida
O período de defeso protege espécies em reprodução e é defendido por pescadores conscientes da necessidade de preservar o ofício. O problema é a transição: quando a pesca para, a renda para junto, e nem sempre o seguro-defeso ou programas de renda alternativa chegam no prazo.
Em Valença, a colônia organizou oficinas de costura de rede e conserto de motor durante o defeso da tainha. A iniciativa veio da associação, não de programa federal — e dependeu de voluntariado e doação de material. «O governo anuncia, a gente espera, às vezes cai algo. Mas quem paga o gás da casa no meio do caminho somos nós», conta a tesoureira da colônia.
Atravessador, feira e venda direta
A cadeia de comercialização da pesca artesanal passa, na maioria dos casos, por atravessadores que compram no cais e revendem em mercados urbanos. A relação é ambígua: de um lado, garantem saída rápida do produto; de outro, determinam preço com pouca transparência.
Algumas colônias testam venda direta via aplicativo de mensagem ou feiras semanais. Os resultados variam. Venda direta exige logística de refrigeração, transporte e confiança do consumidor — desafios reais para quem já trabalha doze horas por dia no mar.
Registro e documentação
Pescador artesanal com RGP (Registro Geral da Pesca) acessa alguns benefícios e participa de consultas formais sobre gestão de recursos. Mas o processo de registro ainda confunde muita gente, especialmente em comunidades com baixa escolaridade formal. Colônias que investem em orientação documental relatam menos multas e mais segurança em negociação.
Olhar adiante
A pesca artesanal não é museu vivo — é economia ativa que precisa de política pública coerente, preço de insumo controlável e respeito àqueles que conhecem o mar de verdade. Romantizar ou ignorar o setor produz o mesmo efeito: invisibilidade.
Se você trabalha com pesca artesanal e quer relatar sua experiência, escreva para [email protected].